Reflexão e Partilha
Recomeçar e o caso de “Las Meninas”
Setembro teve o tema “Recomeçar”. Também por ser uma altura em que as pessoas regressam das férias, iniciam novos projetos, vêm as dinâmicas familiares também mudar, mas também porque, como já vos falei antes, Setembro para mim é sempre um mês de reflexões, de introspetiva, de olhar para e limpar o espelho.
Comprometi-me no início do mês a escrever um pouco sobre a importância de Recomeçar, especialmente porque se gosto de recomeçar em algumas partes da minha vida, também há muitas outras em que não gosto, mesmo sabendo que é pelo melhor.
No caso da minha arte, não sou muito fã. Ter de refazer desenhos, repintar, reimaginar, repensar uma ideia que no início parecia espetacular mas que, a certa altura, percebi não ser assim tão espetacular. Recomeçar não é fácil. Ter de considerar que nem todas as nossas ideias são boas, ou tão boas como esperávamos, custa.
Falar em bloqueios criativos para mim é falar em recomeçar. Ás vezes bloqueio em situações em que sei que tenho de recomeçar um projeto, outras vezes o recomeço de um projeto bloqueia-me (parece a mesma coisa, mas não é). Mas depois desse bloqueio inicial, tenho de confessar que costuma correr melhor.
Lembro-me de quando tive aulas com uma ilustradora que admiro muito e ela me disse que depois de fazer um esboço inicial, devia fazer mais uns quantos. Com diferentes perspectivas, tamanhos, com a personagem a fazer outras coisas. No início pareceu-me meio desnecessário. Já tinha feito um esboço e parecia-me bem. Para quê fazer tantos outros?
Agora penso de na altura me estariam a passar um de dois pensamentos:
já consegui fazer um bom, para quê fazer outros que podem não ficar bons e destruir a minha confiança?
porque quereria fazer outros e perceber que este primeiro esboço é uma porcaria?
Em qualquer um destes pensamentos existia um sentimento em comum, aquele tão básico e tão humano do qual não nos escapamos por completo: o medo.
Recomeçar é aceitar tudo o que fizemos, de bom e mau. É ir a baixo e voltar a cima, para fazer uma vez mais. É cansativo, mas faz crescer, obriga-nos a alargar os nossos horizontes, as nossas barreiras. Ter de pensar numa ou noutra maneira de chegar ao mesmo lugar põe o nosso cérebro a criar novas sinapses e a trabalhar o nosso lado mais criativo.
Novamente, a arte e a sua democracia. Não há dons divinos, há trabalho. E isso é bom, quer dizer que toda a gente pode lá chegar.
“Las Meninas” de Picasso
Em 1957, Picasso decidiu que iria refazer uma versão da pintura “Las Meninas” de Velázquez, em forma de homenagem, e de desafio. Entre 17 de agosto e 30 de dezembro de 1957, Picasso criou 58 obras. Em 44 delas decompôs e reconstruiu a pintura de Velázquez, 2 delas são interpretações livres, 9 representam o pombal que construiu na sua varanda e 3 representam a vista que tinha do seu estúdio em Cannes.
Toda esta coleção, uma das mais ilustres do artista, surgiu de um exercício de fazer e refazer, repensar, reconstruir.
Na semana passada vi esta coleção ao vivo no Museu Picasso em Barcelona e é algo poderoso ver a beleza de um recomeçar. As várias tentativas, as várias perspectivas sobre um mesmo tema.
Se os museus acolhem tentativas, porque não haveremos nós de fazer o mesmo?
Las Meninas, de Diego Velázquez
Las Meninas, de Pablo Picasso (parte da coleção)