Referências e Inspiração
Bruxas: quem foram e onde estão?
Inicio esta partilha com uma frase que li no início da minha pesquisa e que, quanto mais pesquisava, mais vezes me lembrava dela:
“Eles não queimaram bruxas, queimaram mulheres.”
Pregou-se que a Bruxa era o mal de tudo, que era alguém que metia medo e que devia ser exterminada. Afinal, era o empoderamento feminino que metia medo. Afinal eram certas mulheres que deviam ser exterminadas. Mas vamos por partes.
A caça às bruxas
A perseguição à bruxa, que se iniciou no século XIV, matou dezenas de milhares de pessoas, 85% dessas pessoas sendo mulheres.
As mulheres que mais tarde viriam a ser perseguidas, eram mulheres conhecedoras das plantas medicinais, que preparavam remédios ou até que ajudavam nos partos. Eram conhecimentos milenares e tinham um papel importantíssimo numa época e em comunidades com pouco acesso a cuidados médicos. Algumas destas mulheres também praticavam rituais e formas de magia popular. Pregavam à Natureza e traziam consigo séculos de uma conexão com a mesma. A magia era algo comum, caracterizada pelos rituais e curativos populares.
A partir do final da Idade Média, sobretudo nos séculos XV e XVI, a bruxaria passou a ser associada ao Diabo. As bruxas eram uma ameaça à religião cristã. Segundo a Igreja Católica, as parteiras também constituíam uma ameaça, já que amenizavam a dor do parto, o castigo dado a Eva pelo seu pecado. Ainda determinou que quem curasse sem estudos era uma bruxa e devia ser punida. Mas as mulheres nao podiam entrar na universidade. Em 1486, surgiu o Martelo das Bruxas, um livro escrito por membros da Ordem Dominicana, que apresentava as mulheres como especialmente vulneráveis à tentação demoníaca, divulgando uma visão profundamente misógina, que associava a mulher à fraqueza moral, ao pecado e à sexualidade descontrolada.
Numa altura de doenças, como a Peste Negra, de instabilidade religiosa, de guerras entre nações, de más colheitas e de falta de conhecimento, as Bruxas passaram a ser usadas como bode expiatório, que explicasse o mal de tudo. Infelizmente, algo que ainda se usa hoje perante minorias e comunidades mais vulneráveis.
Ser viúva, solteira, ou simplesmente velha. Não ter filhos, estar isolada, não ser o que a comunidade esperava dela. A partir do século XVI bastava qualquer um destes fatores para levantar suspeitas de bruxaria. Isto e querer sobreviver, visto que com a introdução da tortura e dos interrogatórios a mulheres acusadas de bruxaria, muitas pessoas tentavam escapar à dor e morte acusando outras pessoas. Com a evolução da Impressão, livros como o Martelo das bruxas chegavam a mais mãos e pequenas disputas entre vizinhos, conflitos familiares, más colheitas, guerras perdidas eram culpa da Mulher estranha da terra que não tivesse proteção.
Joana d'Arc é uma mulher cuja história demonstra o perigo que uma mulher podia enfrentar ao reivindicar autoridade religiosa, militar e pessoal num mundo dominado por homens. Embora hoje seja vista como uma heroína e santa militar, Joana foi julgada aos 19 anos por um tribunal eclesiástico sob acusações que incluíam a bruxaria, a invocação de demónios e a heresia. Liderou os exércitos contra os ingleses na Guerra dos Cem Anos, e afirmou que comunicava diretamente com Deus, Joana teve um papel decisivo na libertação de Orleans e na coroação do rei Carlos VII. A sua execução pública na fogueira, serviu de aviso a qualquer mulher que ousasse reivindicar uma autoridade espiritual ou política que a sociedade medieval lhe negava.
A Bruxas como conhecemos hoje
As gravuras dos séculos XV e XVI, como as de Albrecht Dürer e Hans Baldung Grien, representavam frequentemente as bruxas como figuras demoníacas, associadas à morte, à sexualidade e a práticas sobrenaturais. Não sendo retratos fieis à realidade, permitem-nos ver e conhecer os medos e as crenças que circulavam na sociedade.
Com a expansão dos livros impressos, das ilustrações e da literatura infantil, a figura da bruxa foi-se tornando uma personagem reconhecível. A mulher velha, assustadora, com um nariz realçado, as roupas escuras e os poderes mágicos passaram a integrar o imaginário popular.
No século XX, filmes como Branca de Neve e os Sete Anões (1937) e O Feiticeiro de Oz (1939) ajudaram a fixar esta imagem na cultura popular. O chapéu pontiagudo, a vassoura e o gato preto tornaram-se símbolos reconhecíveis, apesar de nunca terem constituído um retrato fiel das mulheres perseguidas.
Hoje, o conceito de Bruxa ganha novas formas e reaviva a imagem da Bruxa enquanto um símbolo de uma conexão com a Natureza, a intuição e à luta por um mundo mais feminista. É neste contexto que surge a imagem da bruxa como uma mulher forte, sábia, independente e capaz de desafiar as normas sociais.
Hoje, espero que vejamos cada vez mais a Bruxa como aquilo que ela era e é antes de tudo: uma Mulher. E apesar de não haver interrogatórios e perseguições iguais às de umas centenas de anos, a verdade é que ainda hoje, ser mulher em alguns países basta para ter de ter medo. Noutros, ser mulher e não ser casada e não querer filhos, ou vestir-se de uma forma mais excêntrica, ou ter uma maior conexão à Natureza, ou viver mais isolada, ou ter uma maior intuição, pode ser o suficiente para ser marginalizada.
Qualquer que seja a opinião sobre o aspeto ou o modo de viver da Bruxa, espero que nunca mais tenha de passar pelo que passou.
Vídeos e páginas interessantes para explorar sobre o assunto:
Inspiração
Apesar desta partilha mais expositiva, quis com ela dar a conhecer uma parte da História que não conhecia e que me tem inspirado.
Tal como eu, muitos outros artistas se inspiram ou inspiraram neste mundo, nesta entidade, neste conceito de Bruxa.
Deixo aqui alguns links sobre isso mesmo: